quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O QUE TE BASTA?

Coisas deixam de ser apenas coisas quando se transformam em memórias. Pode ser uma música, um livo, um caderno antigo, um ingresso de show ou qualquer outra coisa que nos conecte ao passado. Dias atrás caminhava pelas ruas do bairro quando passei próximo à escola onde concluí o ensino fundamental e aquilo foi o suficiente para eu voltar quase vinte anos da minha vida. Eu não me lembro de tudo, mas os detalhes eu sei de cor. Do cheiro da minha merendeira, do meu lugar favorito na cantina, da quase ausente iluminação da biblioteca e, principalmente, da vista da janela.

O tempo fez com que eu me esquecesse de muita coisa vivida naquele local, mas a vista da janela é algo que dificilmente sairá da minha cabeça. Acho que ali se revelava minha natureza contemplativa e pode ser que daquela pequena visão de mundo, um universo se abria dentro de mim. Para mim não existia nada além do que meus olhos podiam ver e aquilo me bastava. Talvez seja isso o que nós, adultos, tanto precisamos: o que nos basta.

A gente nasce, cresce e morre cheio de desejos, mas a intensidade com que eles se manifestam ao longo da vida vai se modificando e isso é determinante para nossa sensação de (in)felicidade. Desejos são apenas caprichos. Quando a criança quer algo ela chora, esperneia, e grita se necessário, mas quando você a distrai com outra coisa, ela logo esquece e vai de encontro ao que lhe chama atenção. Adultos, ao contrário, não choram e correm atrás do que querem e, quando conseguem, aquilo perde o valor. Já os idosos, sábios, querem mas não fazem tanto esforço para alcançar. O motivo? Sabem diferenciar desejos de necessidades.

Ester Rodrigues dizia: Crianças a mais, idosos a menos, que diferença isso faz? De certo, não faz diferença se pensarmos que a vida é um ciclo que precisamos errar para aprender o básico. Crianças e idosos são sinceros quando amam. Crianças e idosos precisam de cuidados especiais. Crianças e idosos fazem pirraça e às vezes, por descuido ou não, fazem as necessidades na roupa. Crianças e idosos são sinceros. Crianças e idosos são apenas essência.


 Crianças e idosos não precisam de muito, o que nos leva a concluir que a gente leva uma vida inteira para aprender o que já nascemos sabendo: o necessário nada tem a ver com o essencial e grandes obras só interessam aos olhos dos outros. O que nos dá base firme são nossas experiências da infância e o que aprendemos com elas. Posso passar uma vida de incríveis experiências na fase adulta e ainda não sei o que me aguarda na velhice, mas poucas coisas me farão sentir tão bem quanto a vista da janela da escola. 

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